Não se esqueça de mim...
26/02/2009 - Tribuna do Norte
Por Michelle Ferret - de Salvador
Por Michelle Ferret - de Salvador
No próximo ano, a criação do trio elétrico comemora 60 anos. Longe de ser uma data festiva, os herdeiros dos criadores dessa história se mostram insatisfeitos com a maneira como cuidam da história da música no Brasil. Prova disso foram os protestos em série de Armandinho, Daniela Mercury e os Novos Baianos em pleno carnaval.
“É preciso respeito pela história”. A frase que poderia soar de diferentes maneiras é uma reflexão do guitarrista e compositor Armandinho enquanto fazia sua apresentação em cima de um trio elétrico num dos circuitos mais privilegiados do carnaval de Salvador. Ele que é filho de Osmar, criador do trio elétrico ao lado de Dodô, hoje batalha o ano inteiro para conseguir apoio do governo da Bahia garantindo a saída do “Fobica”, réplica do primeiro trio elétrico do mundo.
Entre uma canção e outra, Armandinho tentou dar o seu recado. Disse insistir em levar a guitarra baiana para que os mais novos tenham acesso à própria história. “Não podemos apagar nossas referências”, desabafou. Avesso à maneira como o carnaval se consolidou nos últimos anos, ele faz questão de sair no trio elétrico sem cordas de isolamento todos os anos e criticou em público a comercialização exagerada da folia.
O protesto de Armandinho ecoou por outros trios. Daniela Mercury, uma das responsáveis por divulgar o axé baiano para o mundo, hoje se diz triste em compartilhar com tamanho comércio da arte em sua cidade.
Prova disso, foram seus discursos durante o carnaval e também as homenagens que a cantora prestou durante os seis dias de folia. Ela fez questão de se vestir com um manto, que mais lembrava o Bispo do Rosário, fazendo referência ao movimento Tropicalista. Com um tom agressivo na maior parte do tempo, Daniela chegou ao ponto de colocar sua cabeça entre as grades do trio elétrico e gritar por liberdade. “A música baiana precisa de liberdade para continuar a acontecer”.
Sua voz fez vibrar aplausos de Gilberto Gil e Caetano Veloso que assistiam a passagem do trio. Ao lado dela, os integrantes dos Novos Baianos Pepeu Gomes, Baby Brasil e Paulinho Boca de Cantor estavam confundidos entre o colorido dos bailarinos de Daniela. Eles fizeram juntos, algumas canções que marcaram a música brasileira como “Preta Pretinha”, enquanto alguns foliões com camisetas do bloco de Asa de Águia passavam embaixo do trio perguntando uns aos outros, “quem são esses loucos em cima do trio de Daniela?”, seguido da resposta “não sei, devem ser cantores novos”.
O outro lado da folia
Entre os protestos e a falta de conhecimento da maioria dos novos foliões de quem seriam aqueles “Novos Baianos”, ou perguntas de quem seria aquele senhor de cabeça branca (leia-se Caetano Veloso), o carnaval baiano vai sobrevivendo escondendo nesse escombro os blocos Afros, que por pouco não saiam no carnaval, salvos por uma verba de R$ 1 milhão vinda da Petrobras dias antes do início do carnaval. O comércio que Daniela tanto ressaltou talvez seja esse esquecimento.
Enquanto novos baianos, paulistanos, cariocas e pessoas do mundo inteiro gastam fortunas para comparem seus abadás e ouvirem torrencialmente as mesmas canções com refrões fáceis, os compositores baianos ficam esmagados nos seus cantinhos de sala como acontece com Armandinho. E são vistos como os chatos do carnaval, frase repetida inúmeras vezes entre os mais jovens.
Autor de canções como “Vassourinha Elétrica”, Armandinho talvez não tenha escutado esse comentário, mas retornou em alto e bom som. “Precisamos ouvir mais nossos compositores baianos. Precisamos dar atenção a nossas tradições”, disse ele, depois de explicar que a guitarra baiana está viva e mudou a história da música brasileira.
Os novos (...) talvez nem tenham escutado o que o compositor tentou dizer e mal sabiam eles que a brincadeira com os trios elétricos só é possível hoje porque Dodô e Osmar transformaram um velho Ford 29 num palco móvel, permitindo a dupla a execução de clássicos do frevo pernambucano e seus exóticos paus elétricos em alto volume.
Depois de chamarem Armandinho de “chato”, os foliões do Asa de Águia ainda completaram “quem são esses Dodô e Osmar que vem escrito no trio?”. Restou a Armandinho cantar “Chuva, Suor e Cerveja”, do “velhinho de cabeça branca”. “Não se esqueça de mim, não desapareça...Seja o que Deus quiser”.

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