Marcos Bagno - sobre os registros da lingua brasileira.
Marcos Bagno a Caros Amigos
Renato Pompeu – Pelo que entendi, o seu trabalho representa uma reabilitação dos falares populares. Considerar tão digno dizer “nós vamos” e “nóis vai”, as duas frases exercem a mesma função comunicativa e uma não é melhor do que a outra. Mas como isso se aplicaria nas escolas?
Do ponto de vista da lingüística cientifica não existe nenhuma diferença entre “nóis vai” e “nós vamos”. As duas têm razão de ser, têm uma lógica interna, respondem a processo de transformação da própria língua. Mas aí é que entra a diferença entre um estudo sociológico e o relativismo meio simplista, essa coisa horizontal que a sociolingüística variacionista coloca. Na sociologia da linguagem vira uma coisa vertical em que os diferentes falares sociais são hierarquizados diferentemente. Então, algumas formas lingüísticas gozam de prestígio na sociedade e outras sofrem estigma. As que gozam de prestígio são aquelas usadas pelas camadas dominantes da sociedade. Quando há uma inversão desses papéis sociais – como aconteceu na França no século 18 com a Revolução Francesa –, quando uma classe social assume o poder, evidentemente a sua maneira de falar vai passar a ser considerada a mais bonita, a mais correta, aquela que deve ser imitada. O exemplo da França é o mais eloqüente a esse respeito. Muitas coisas que eram condenadas, consideradas feias, fala vulgar etc., com a ascensão da burguesia ao poder se transformaram no francês modelar, que todo mundo tem que aprender e ensinar.
"...quando a gente diz que é preciso respeitar e aceitar as formas de falar das diferentes comunidades, não significa que achamos que é preciso deixar essas pessoas encerradas na sua maneira de falar. O aluno chega na escola já perfeitamente conhecedor da sua língua materna, da sua variedade lingüística, tem toda a gramática da língua na cabeça, então o trabalho da escola vai ser não negar o que ele já sabe, mas partir do que ele já sabe e apresentar a ele outras maneiras, outras formas."
"...quando a gente diz que é preciso respeitar e aceitar as formas de falar das diferentes comunidades, não significa que achamos que é preciso deixar essas pessoas encerradas na sua maneira de falar. O aluno chega na escola já perfeitamente conhecedor da sua língua materna, da sua variedade lingüística, tem toda a gramática da língua na cabeça, então o trabalho da escola vai ser não negar o que ele já sabe, mas partir do que ele já sabe e apresentar a ele outras maneiras, outras formas."
"... Sérgio de Souza – E ele poderá escrever como fala?
Não, porque vai perceber que existem normas sociais que vão cobrar dele determinadas maneiras de escrever, determinadas maneiras de falar em situações diferentes, ele vai perceber que a língua varia de acordo com a interação social. Ele já sabe disso intuitivamente, uma criança sabe que não pode falar com outra criança da sua idade da mesma maneira como fala com um adulto, com uma pessoa de quem ela tem medo ou por quem ela tem respeito. A variação estilística, como a gente chama, está presente em todos os indivíduos, mas ela vai ser ampliada e sistematizada pelo acesso à cultura letrada... essa maleabilidade da língua que a gente precisa mostrar pro aluno e fazer com que ele possa dominar também..."
"Carlos Azevedo – E essa invasão estrangeira, delivery, essas coisas todas, isso significa o quê?
Significa que o imperialismo americano está aí, que a globalização não existe, o que existe é a norte-americanização do mundo. A invasão, como as pessoas falam, esse uso intenso de termos estrangeiros, que não são estrangeiros, são do inglês, porque não vejo ninguém usar uma palavra turca, indonésia ou sul-africana pra designar nada, nem francês, que hoje é uma língua semiconsciente, quase morta..."
"...Nas culturas ocidentais que passaram pelo processo de normatização o que aconteceu foi isso, em determinado período da história – no caso do português e na maioria das línguas européias foi no Renascimento, por causa da unificação dos Estados nacionais, a queda do feudalismo –, para criar uma identidade nacional era preciso criar um modelo de língua. Então eram criadas as leis, as normas sociais, as normas políticas e também as normas lingüísticas. Até para fins burocráticos, para poder emitir documentos, produzir as leis, era preciso ter um modelo de língua, então a língua foi retirada da heterogeneidade natural dela e transformada num modelo mais homogêneo, houve essa normatização da língua. No caso especifico do português brasileiro, o grande problema é que essa norma é muito rígida, muito obsoleta, muito ultrapassada. Em outros países, que têm sociedades mais democráticas, por exemplo, nos Estados Unidos, a língua inglesa em geral, à medida que vão surgindo novas formas de falar e escrever, essa norma padrão vai incorporando sem muito trauma, os dicionários autorizam e por aí vai. Aqui no Brasil isso não acontece porque é fruto do nosso processo colonial, a tentativa das nossas elites desde sempre de se afastar do vulgo, do populacho, da negraiada, da indiada e criar uma casta branca superior, europeizada. E essas benditas formas brasileiras continuam sendo consideradas erros a ser evitados, e vai o Pasquale Cipro Neto vociferar na televisão e na Folha de S. Paulo que aquilo ali não pode, que é língua de índio, de pobre, de burro, vai aquela descabelada chamada Dad Squarisi, que é uma das pessoas mais burras que eu já vi, falar que isso devia ser evitado...."
"...Vinícius Souto – Daria pra dizer que o ensino abafa talentos, traz insegurança, por causa dessa insistência em regras gramaticais?
"...Sérgio de Souza – Especificamente do ponto de vista político, em termos de transformação da língua, vocês, novos teóricos, têm que força hoje, proporcionalmente falando?
"...Nas culturas ocidentais que passaram pelo processo de normatização o que aconteceu foi isso, em determinado período da história – no caso do português e na maioria das línguas européias foi no Renascimento, por causa da unificação dos Estados nacionais, a queda do feudalismo –, para criar uma identidade nacional era preciso criar um modelo de língua. Então eram criadas as leis, as normas sociais, as normas políticas e também as normas lingüísticas. Até para fins burocráticos, para poder emitir documentos, produzir as leis, era preciso ter um modelo de língua, então a língua foi retirada da heterogeneidade natural dela e transformada num modelo mais homogêneo, houve essa normatização da língua. No caso especifico do português brasileiro, o grande problema é que essa norma é muito rígida, muito obsoleta, muito ultrapassada. Em outros países, que têm sociedades mais democráticas, por exemplo, nos Estados Unidos, a língua inglesa em geral, à medida que vão surgindo novas formas de falar e escrever, essa norma padrão vai incorporando sem muito trauma, os dicionários autorizam e por aí vai. Aqui no Brasil isso não acontece porque é fruto do nosso processo colonial, a tentativa das nossas elites desde sempre de se afastar do vulgo, do populacho, da negraiada, da indiada e criar uma casta branca superior, europeizada. E essas benditas formas brasileiras continuam sendo consideradas erros a ser evitados, e vai o Pasquale Cipro Neto vociferar na televisão e na Folha de S. Paulo que aquilo ali não pode, que é língua de índio, de pobre, de burro, vai aquela descabelada chamada Dad Squarisi, que é uma das pessoas mais burras que eu já vi, falar que isso devia ser evitado...."
"...Vinícius Souto – Daria pra dizer que o ensino abafa talentos, traz insegurança, por causa dessa insistência em regras gramaticais?
A escola é um agente de reprodução dessas formas “legítimas” de falar, então, principalmente para as camadas populares, ela não permite o acesso às formas prestigiadas e também não reconhece a forma de falar original do seu estudante; tem aí um problema social muito grave..."
"...Rodrigo Aranha – A música do Adoniran Barbosa serviu para cutucar, digamos assim, a cultura de elite?
Infelizmente, figuras como Adoniran Barbosa, Patativa do Assaré, Luiz Gonzaga, esses artistas mais criativos que souberam trabalhar com a linguagem popular, são sempre apresentados, principalmente nos livros didáticos, como coisas pitorescas, que fizeram um trabalho diferente, divertido, mas estão aí no seu lugar; é para manter a distância, mostrar o que não fazer. O que existe é um medo das elites, dos que detêm o poder cultural, político, econômico etc., de se deixar contaminar pela cultura, pelo modo de ser, de viver do populacho, do vulgo, como se dizia no século 19. É uma perpetuação, digamos, de uma ideologia que vem desde o período colonial, e da Independência. A tentativa de preservar esse português puro, correto, é querer impedir que a nossa imensa periferia, que está chegando cada vez mais para o centro, tome conta de todos os aspectos da vida social, inclusive da linguagem..."
"...Sérgio de Souza – Especificamente do ponto de vista político, em termos de transformação da língua, vocês, novos teóricos, têm que força hoje, proporcionalmente falando?
Nos estudos da linguagem temos duas grandes correntes: um grupo de lingüistas que acha possível estudar a língua só nas estruturas internas, imanentes; e aqueles que consideram impossível fazer um estudo da língua sem levar em consideração a cultura, os fenômenos sociais, etc. Esse segundo grupo, ao qual me filio, é que tem tido maior influência junto às instâncias de educação, ao ministério, à produção de material didático, à formação de professores, e o resultado a gente tem visto; os parâmetros curriculares nacionais, as diretrizes de educação, os processos de avaliação de material didático, os cursos de formação continuada dos professores, todos vêm dentro dessa linha...."
"...Mas essa questão de aceitar as formas inovadoras é que precisa ser democratizada. Acabar com essa cultura do erro. Só que as pessoas confundem. E os inimigos dessas posturas mais avançadas dizem: “Ah, então agora as pessoas vão poder dizer ‘nós vai’, ‘os menino veio’”. Não é isso que a gente está propondo, porque essas formas são rejeitadas pelos falantes urbanos escolarizados, etc. O que a gente quer é que pelo menos as formas inovadoras que já fazem parte do português urbano, escrito, privilegiado etc. sejam consideradas.
"...Mas essa questão de aceitar as formas inovadoras é que precisa ser democratizada. Acabar com essa cultura do erro. Só que as pessoas confundem. E os inimigos dessas posturas mais avançadas dizem: “Ah, então agora as pessoas vão poder dizer ‘nós vai’, ‘os menino veio’”. Não é isso que a gente está propondo, porque essas formas são rejeitadas pelos falantes urbanos escolarizados, etc. O que a gente quer é que pelo menos as formas inovadoras que já fazem parte do português urbano, escrito, privilegiado etc. sejam consideradas.
Marcos Zibordi – Então quer dizer que não é nenhuma revolução?
Não é. Mas acontece que a nossa elite é tão empedernida na preservação das suas distinções que nem isso ela aceita. No Brasil temos uma situação muito curiosa. Em todos os países, em todas as culturas existe uma camada que acha que fala mais bonito, mais correto. Aqui, as nossas elites acham que o povaréu fala errado e que ela mesma, elite, fala errado. Que só uns três ou quatro e os portugueses falam bem. Existe preconceito contra a própria maneira de falar das camadas urbanas letradas...."

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